Jornalista,
advogado e escritor
Copérnico, Galileu, Kepler, Descartes e outros jamais tentaram desafiar o que a fé proclamava, mas entender o mundo físico em que vivemos (se ainda podemos dizê-lo “físico” a partir da abordagem quântica e subpartículas que tendem para zero). Só pretendiam compreender o que se chama(va) Criação, sem interferências estranhas, possível mesmo de deduzir da narrativa “…e no sétimo dia descansou”. Ou seja, conhecer o mundo dado.
A arrogância religiosa extirpou essa diretriz e fez das afirmações próprias a “verdade” (ou a fogueira). Faz lembrar Wilhem Reich, quem controla o prazer detém o poder, inventa-se o pecado para vender o perdão.
Nenhum dos citados jamais pretendeu reescrever os evangelhos ou textos tidos como sagrados. Com base em Newton, Laplace escreveu “Celestial Mechanics” e presenteou um exemplar a Napoleão que observou o livro abordar o mundo todo sem mencionar seu criador. Respondeu Laplace “Majestade, eu não necessito desta hipótese”. Laplace descrevia o “mundo dado”, não seu início (tema de artigo futuro). A hipótese viria a ser o “big bang”.
Então a Ciência jamais confrontou a religião, mas esta que perseguiu os racionalistas (simplifiquemos assim) porque seu poder decorria de mitos, a narrativa não comprovada, o sol girar em volta da terra etc. Quem é flagrado em erro pode corrigir-se, mas não proclamar a própria infalibilidade, portanto no mínimo diminuída a autoridade de reclamar o poder de perdoar, conceder indulgências etc. se provado que a terra gira em torno do sol.
Os livros brasileiros sobre o Tratado de Tordesilhas omitem que o patrocinou o papa Alexandre VI, ou Rodrigo Bórgia, “menino traquina”, e mais não se conta porque esta coluna não é liberada para menores de 21 anos (há série em DVD que poderia ser mais histórica e menos apelativa. “Os Tudor” é melhor.)
Herança do getulismo, aproveitando coincidências de datas. lembro que nos ensinavam que os nazistas começaram a ser derrotados apenas depois que o Brasil entrou no conflito, o que não compromete o lendário (para os Aliados) heroísmo da FEB, cujos integrantes jamais foram devidamente reconhecidos entre nós. Nada sabíamos sobre Stalingrado e Leningrado, e Pearl Harbour teria sido um choque de catraias e batelões. Visitei as duas cidades russas, hoje Volgogrado e St. Petersburgo, em ambas conservadas numerosas quarteirões como ficaram após as batalhas. Sabendo que o comunismo era meio de dominação interna, pouco antes aliado dos nazistas, deixou-se de lado a ideologia e o próprio Stalin convocou para a “grande guerra patriótica”. (A do Brasil terminou 7 a 1).
A História não pode ser ciência porque há sempre algum interesse na narrativa, portanto abre-se para manipulações, no máximo conferem-se os vários tipos de prova em que se diz basear.
Tornou-se quase mito, hoje, a separação entre Estado e religião. O estado democrático repudia “religião oficial” justamente porque não quer obrigar ninguém a “crer”, mas se forma a pressão para votar nos que “creem”, o que tira do voto a vontade genuína do eleitor.
Quando aparece um (falso) barbudo se dizendo “sumo sacerdote” nos reafirmamos como o país do carnaval, inaugurado agora o “templodrómo”. O estado democrático separa o cidadão do “crente”, e quando este domina aquele, temos o Oriente Médio. Felizmente nos resolvemos com barbudos fantasiados, mas ainda sem o estado democrático.
País do Carnaval
Nenhum comentário:
Postar um comentário