Monge beneditino, escritor e teólogo
Adital — Em grego, o termo mártir significa testemunha. Comumente é quem dá a vida ou sofre consequências por ser testemunha da dignidade humana e da liberdade. Há mártires nas lutas sociais por um mundo mais justo, no combate ao racismo, na defesa da natureza e na defesa da fé. Nesses dias, na Faixa de Gaza, em meio aos ataques do Estado de Israel à população palestina, voluntários de vários países e de diversas religiões arriscam a vida ao socorrer feridos e ajudar pessoas a sobreviver. São mártires vivos, embora alguns acabam feridos e até mortos pelos tiroteios. Na América Latina, a luta contra as ditaduras, pela democracia e pela justiça teve e tem ainda muitos mártires. Como, na Bíblia, diz a carta aos hebreus: “eles formam uma imensa nuvem de testemunhas”.
Nesses dias, no Brasil, as comunidades cristãs de base e os movimentos sociais celebram os 40 anos do martírio do frei Tito Alencar. Por causa de sua fé no reino de Deus e pelo seguimento do profeta Jesus, junto com outros jovens dominicanos, no final dos anos 60, esse irmão enfrentou a ditadura militar brasileira. Foi preso em São Paulo e durante vários dias foi barbaramente torturado. Ainda na prisão, ele escreveu o relato fiel e sóbrio dessas sessões de tortura, comandadas pelo delegado Sérgio Fleury e por sua equipe do Dops em São Paulo. Esse escrito, fielmente transcrito em um livro de frei Betto, até hoje, comove profundamente qualquer pessoa que o lê. Ao escutá-lo, um cristão sente os ecos dos primeiros cristãos contando nos evangelhos os sofrimentos e morte de Jesus na cruz.
Mais de um ano depois, o nome de frei Tito foi incluído na lista dos presos políticos a serem libertados pela ditadura, em troca do embaixador suíço que tinha sido sequestrado. Obrigado a viver no exílio, longe do Brasil, frei Tito não conseguiu libertar-se dos traumas sofridos durante as torturas. Na permanente angústia e terror de ver o seu torturador em todo lugar, ele acabou se enforcando em um convento da França, onde estava exilado. Desde a sua morte, em 10 de agosto de 1974, as comunidades cristãs latino-americanas o consideram um irmão que deu a vida pela causa do reino de Deus e sua justiça. Vinte anos depois, seus restos foram transferidos ao Brasil e, atualmente, repousam em Fortaleza, sua cidade natal.
Nesses dias, a província dominicana do Brasil e as comunidades da caminhada promovem vários eventos para recordar os 40 anos do martírio de frei Tito e refletir sobre a atualidade do seu testemunho para os nossos dias. Graças a Deus, não vivemos mais os tempos duros da repressão militar, mas até hoje, tantos anos depois, não conseguimos esclarecer a maioria dos crimes, fazer justiça às famílias dos muitos desaparecidos e, principalmente, garantir que crimes como a tortura nunca mais se repitam. No Brasil de hoje, a tortura continua sendo praticada em muitas delegacias de todo o país.
No ano passado, no Rio de Janeiro, o pedreiro Amarildo foi torturado e assassinado por soldados que tinham como missão pacificar os morros do Rio. Em todas as regiões do país, quase diariamente, são sumariamente assassinados adolescentes e jovens de periferia, em sua maioria, negros e pobres. Nesses dias, começamos o tempo de campanha política para as próximas eleições. A segurança pública e a questão da violência urbana são temas frequentemente lembrados nas campanhas, mas raramente são abordados a partir da vida dos mais pobres e desprotegidos.
Mártires que não morrem nunca
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