Após 29 dias de vazante, moradores de bairros afetados pela cheia em Manaus começam a desmontar pontes e marombas e retornar à rotina. Na última sexta-feira (8), a cota registrada do rio Negro foi de 28,71 centímetros. Na segunda (11), já havia passado para 28,60 centímetros.
Na semana passada, o comerciante Carlos Fontineli, 54, ajudou os vizinhos a remover parte da ponte de madeira construída sobre a rua Daniel Sevalho, no bairro Raiz, Zona Sul.
“A água começou a secar mesmo nos últimos 15 dias. Mas demorou demais este ano para baixar. Em agosto do ano passado já tinha secado há muito tempo”, contou.
A água invadiu em cerca de 30 centímetros a casa de Carlos, e o pequeno comércio que administra. “Na enchente a gente tem prejuízo, porque as vendas ficam devagar. Estamos inscritos no Prosamim, mas até agora nada de virem nos tirar”, afirmou.
Moradora do beco Piauí, no mesmo bairro, a dona de casa Laíde Miranda, 54, também removeu a ponte de acesso e parte da maromba de casa.
“Baixou mais ou menos 1 metro em três semanas. Tivemos que construir a ponte e entrar pela janela de casa porque encheu muito. Em agosto do ano passado tinha descido mais, mas também acho que a cota havia sido menor”, refletiu.
Ela lembrou que ganhou dos órgãos rancho e R$ 600. Por conta da enchente ela perdeu geladeira, sofá, fogão e máquina de lavar.
“Não nos deram madeira, nós tivemos que comprar para poder suspender a casa. Mas não consegui subir todos os móveis a tempo, mesmo porque a casa está em risco de tombar”, disse.
Ponte improvisada
No Centro, as ruas dos Barés e a Barão de São Domingos – que foram interditadas pelo Instituto Municipal de Engenharia e Fiscalização do Trânsito (Manaustrans) por apresentarem trechos alagados – voltaram a ser trafegadas normalmente.
Uma ponte improvisada com paletes que havia sido instalada no corredor, ao lado da feira Manaus Moderna, onde se concentram várias lanchonetes também foi removida.
Na orla da feira os trabalhadores constatam a baixa da margem do rio. Há mais ou menos um mês, os carros desciam na rampa para a balsa e as mercadorias era levadas facilmente para dentro dos barcos, agora, os trabalhadores retornaram a carregar as mercadorias do caminhão para a balsa e os barcos.
“Agora, tem que carregar os produtos a pé, porque o rio baixou e a rampa não alcança mais o nível da rua. Mas esse período ainda é bom para trabalhar. No verão se forma uns 150 metros de praia e fica mais longe para levar as mercadorias até o barco. Tem que descer a rampa, caminhar pela areia e pela lama, até chegar aos barcos”, explicou o locutor José Souza, 36.
Em três anos, trabalhando na orla, a vazante de 2014 é que tem demorado mais para se apresentar. “Em agosto do ano passado estava mais seco, porque começou a secar em junho. Este ano só começou a secar em julho e esta devagar”, afirmou.
Lixo acumulado
Com a vazante, mesmo que a passos lentos, o lixo vem se acumulando e formando um tapete em grande parte dos igarapés que cortam a cidade. De acordo com dados da Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (Semulsp), 7.486,12 toneladas foram recolhidas de igarapés e córregos de Manaus em 2013 e 3.986,000 somente neste ano.
O igarapé da Cachoerinha e da Raiz, que corta a avenida Silves na Zona Sul, estava coberto por resíduos na manhã de segunda. “Esse lixo vem também da Zona Leste. As pessoas não têm consciência, é muito triste, porque a culpa não é dos governantes e sim do povo que joga lixo em local inadequado”, afirmou a dona de casa Lorivalda Neves, 55.
Segundo ela, durante a vazante o lixo escondido no fundo do igarapé aparece. “A limpeza é feita somente do lixo que é trazido pela correnteza. O que fica no chão não é recolhido e é esse que ‘brota’ no período da vazante”, apontou.
Além do igarapé da Zona Sul, na Zona Oeste o igarapé da Cachoeira Grande, próximo à ponte de acesso ao bairro São Jorge, também tem concentrado grande quantidade de resíduos sólidos.
“Não adianta a prefeitura vir limpar se os próprios moradores jogam lixo, não só daqui, mas de outros bairros também”, concluiu a dona de casa Francisca Silva, 46.
Por Ive Rylo (Jornal EM TEMPO)
Com o fim da cheia, moradores dos bairros de Manaus que estavam alagados retomam a rotina
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