quarta-feira, 13 de agosto de 2014

'Voto de cajado': Evangélicos se dizem dispostos a combater a exploração da fé para fins eleitorais

Uso para palco eleitoral de estruturas eclesiásticas tradicionais, como a “Marcha para Jesus”, é foco de controvérsia – foto: Diego Janatã Uso para palco eleitoral de estruturas eclesiásticas tradicionais, como a “Marcha para Jesus”, é foco de controvérsia – foto: Diego Janatã


Temas polêmicos, como a mistura de religião e política se mantêm ao longo dos séculos como dois dos principais pilares da sociedade organizada.


Com influência mútua, os assuntos por vezes deflagram combates e minimizam o poder de escolha de fiéis/eleitores, que como ‘ovelhas’ tendem a ser direcionadas a votar em candidatos, bem-vistos aos olhos dessa ou daquela congregação.


Podendo ser considerado o maior dos colégios eleitorais, os espaços religiosos abrigam no Amazonas, conforme dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),- realizado em 2010-, 482 mil devotos, representando 22% de todo o colégio eleitoral do Estado.


No caso do voto evangélico, o número também é expressivo e pode ditar os rumos dos cargos majoritários disputados este ano. Ainda com base nos números disponibilizados pelo IBGE, somente em Manaus, 23,8% da população apta a computar seus votos é de protestantes.


Para combater o chamado “voto de cajado”, como é conhecido o voto obtido por meio de “orientações” dadas nos púlpitos, acontece pela primeira vez na capital amazonense o movimento liderado pela organização sem fins lucrativos, conhecida como Rede Fale.


A iniciativa de cristãos protestantes já acontece em diversos países e tem promovido nos últimos dias, ações voltadas ao debate sobre a participação evangélica em pleitos eleitorais também no Amazonas.


De acordo com um dos 15 integrantes da Rede Fale em Manaus, Jossimar Ferreira, pensando neste conceito, a ação tem servido para conscientizar o eleitor cristão a usar seu voto como instrumento de libertação e não de manipulação.


“Um dos principais meios a serem utilizados por nós é a internet, por ela, temos conseguido alcançar milhares de cristãos. Entendemos a importância do processo político, mas não concordamos com o que muitas igrejas e líderes amplamente conhecidos estão fazendo”, comentou.


O administrador de empresas de 24 anos acredita, que muitas das estruturas eclesiásticas, principalmente as utilizadas em grandes eventos como a “Marcha para Jesus”, que acontece anualmente em todas as capitais da federação, estão sendo aproveitadas como palco eleitoral.


Placas com imagens de candidatos, implantadas ao logo do percurso estabelecido para a peregrinação em Manaus no último dia 2 de agosto, e que foram registrados pelas câmeras do grupo, fortaleceram ainda mais a necessidade do trabalho da entidade, segundo Jossimar.


“Iniciamos os trabalhos durante a 21ª Marcha para Jesus, distribuímos panfletos e empunhamos faixas com diversas mensagens. O que não foi surpresa foi o uso de material de propaganda de candidatos como Marcel Alexandre (PMDB) e Eduardo Braga (PMDB). Não concordamos com essas medidas, a igreja é formada em sua maioria de bons cristãos, pessoas de boa-fé que não podem ser usadas por balcões de votos”, ponderou.


Ligações diretas


Conforme informações contidas no Portal de Transparência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pelo menos nove candidatos possuem ligações diretas com instituições evangélicas.


Silas Câmara (PSD), Pastor Nilmar (PRB), Irmão Alcimar (PP),  Pastor Carlos Alberto (PRB), Francisco Souza (PSC), Pastora Luciana (PP), Marcel Alexandre (PMDB) e Pastor Nascimento, fazem parte do grupo de candidatos da base evangélica.


Segundo o ativista, o momento é ideal para a realização do ato, pois membros de instituições religiosas que mostraram descontentamento com o direcionamento político com vistas ao pleito que se avizinha, já estariam sofrendo retaliações dentro dos ministérios.


“Entramos em ação na hora certa, principalmente com a perseguição de alguns pastores e membros de algumas igrejas, que não aceitam esse processo de imposição e alienação, como é o caso do pastor Pedro Moura, que foi expulso e o do pastor Stanley Braga, que foi afastado das atribuições junto à igreja Assembleia de Deus, por não concordar com o projeto político pessoal da congregação”, enfatizou.


A igreja Assembleia de Deus, que soma mais de 300 mil eleitores, declarou no último domingo (10) apoio à coligação de José Melo (Pros) e Omar Aziz (PSD) – foto: divulgação A igreja Assembleia de Deus, que soma mais de 300 mil eleitores, declarou no último domingo (10) apoio à coligação de José Melo (Pros) e Omar Aziz (PSD) – foto: divulgação


O flagrante de propaganda eleitoral nos espaços públicos feito pelos integrantes da Rede Fale, foi encaminhado ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AM).


De acordo com Jossimar Ferreira, o grupo espera que iniciativas contrárias à legislação eleitoral sejam repreendidas pelo tribunal, que a denúncia sirva para incentivar a participação popular na fiscalização de ilícitos eleitorais.


Conforme a legislação vigente nos bens cujo uso dependa de cessão ou permissão do poder público, ou que a ele pertençam a uso comum, inclusive postes de iluminação pública e sinalização de tráfego, viadutos, passarelas, pontes, paradas de ônibus e outros equipamentos urbanos, é proibida a veiculação de propaganda de qualquer natureza, inclusive pichação, inscrição a tinta, fixação de placas, estandartes, faixas e assemelhados.


A reportagem do EM TEMPO tentou contato junto à comissão de propaganda do Tribunal Regional Eleitoral, para descobrir sobre o andamento da denúncia feita pela Rede Fale, mas não obteve sucesso.


Norte e Nordeste


Com uma massa crescente de adeptos, o protestantismo cresceu no Brasil 61,45% ao longo de 10 anos.


A constatação do IBGE sinalizou em 2010, que o Norte e o Nordeste estão no topo das regiões com o maior número de evangélicos, com o número favorável as candidaturas apoiadas nessas cifras é natural que a adesão dos líderes a determinadas campanhas seja disputada de forma acirrada.


Figurando como a segunda maior igreja em números de fiéis, atrás somente da Igreja Católica Apostólica Romana, a igreja Assembleia de Deus, que soma mais de 300 mil eleitores, declarou no último domingo (10) apoio a reeleição do governador José Melo (Pros), e do ex-governador e candidato ao Senado Federal, Omar Aziz (PSD).


Para validar o acordo, mais de 8.000 lideres religiosos da congregação estiveram no auditório Centro de Convenções Canaã, localizado na avenida General Rodrigo Octávio Jordão Ramos, no Japiim, Zona Sul de Manaus.


Com o aval do pastor Jonatas Câmara, presidente das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Amazonas, postulantes aos cargos de deputado federal pela base evangélica, como Silas Câmara (PSD), também aproveitaram para projetar suas intenções.


Por Joelma Muniz (Jornal EM TEMPO)

















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